14/03/08

...o broto quis andar no calhambeque, tchúbi-rúbi-rúbi-tchúbi-tchubí...

Embora eu tenha sentado aqui nessa cadeira dura, pensado por 5 minutos e chegado à conculsão de que estou mais feliz do que infeliz, não sinto ganas quaisquer de escrever - e é isso que me aborrece. Ontem havia redigido um post enorme sobre o que têm a ver Martin Heidegger, Walter Mercado e o labrador preto gigante que estava aqui na sala de espera (e não tinha nenhum cego!); e sobre como eu tive que me conter pra não pôr minha mãozinha no focinho dele visto que deve existir alguma ética quanto a não atrapalharmos o trabalho de cães-guia... mas apaguei tudo, não tive saco, saiu errado, sem graça, sem ritmo, sem talento, não funcionou, não ornou, não deu samba.

Mas (empolando-me para assumir ares filosóficos) há coisas na vida que a gente tem que registrar. E logo, pra que não percam a graça e o sabor. Na esteira de que trabalhar em lugar longínquo tal qual a Barra Funda (ou Deep Bar, para os íntimos) acarreta sempre fortes emoções, devo relatar a experiência única que foi um almoço com meu nobre colega Luiz no Keridinho.

Sim. Keridinho. E eu diria sic, não fosse o fato de ser impossível reproduzir neste texto os pingos nos is em feitio de coração. Na esquina da Marquês de São Vicente com uma-dessas-ruas-que-são-todas-iguais, parece um desses restaurantes por quilo comum, dos quais você não espera muito glamour nem maestria culinária, mas que suprem bem suas necessidades de um almocinho amigo - as minhas em especial, já que só consigo sair da senzala pra ver a cara da rua e almoçar às sextas-feiras (quando também aproveito pra tentar ver meu amor passar).

Mas eis que na entrada, uma lousa com os dizeres "Keridinho informa" logo avisa: almoço com música ao vivo às 5ªs e 6ªs. E conforme prometido, lá estava o cantor: um homem de meia-idade, careca, a cara do preposto da Telefonica-sem-acento que sempre vai fazer as audiências. À sua frente, é claro, um teclado super-ultra-mega, emitindo uma daquelas beats eletrônicas enquanto ele, animadamente, anuncia que o happy-hour do Keridinho é grátis e acontece toda sexta-feira.

Não me entendam mal. Gastronomicamente, o Keridinho não fica a dever a nenhum quilo da Deep Bar (o que é um elogio meio desajeitado, mas enfim). Tinha até hosomaki com pepino e com kani - e o kani nem parecia uma borracha escolar, ó. Quanto ao cantor, again, don't let me be misunderstood: apesar de a voz dele ser uma mistura de Leonardo com Katinguelê (na verdade eu nem sei como é a voz do Katinguelê, só quis ser engraçadinha mesmo), o cara é afinado, tem carisma e atitude - eu não ia ter a manha de cantar "Mulheres", do Martinho da Vila, num salão cheio de adEvogados almoçantes.

O ponto alto do almoço foi quando ele tocou/cantou "O Calhambeque", hit imortalizado na voz do Rei-manco Roberto Carlos (é, são tantas emoções). Vocês devem imaginar o quanto eu gosto do Rei, já que vivo falando (mal) dele aqui. Só que "O Calhambeque" está acima do bem e do mal, porque me foi ensinada em tenra infância pelo meu pai que, juntamente com a minha mãe, é responsável pela minha adoração por bandas que já não existiam há muito tempo quando nasci. O que é um pouco loser, se você for pensar. Mas tudo bem.

E eu duvido que o Rei ainda deixe de bom grado que pessoas toquem "O Calhambeque". Regravações, então, nem pensar. Porque sabem, depois que a mulher dele morreu, ele entrou numas de que as pessoas não podiam usar marrom e nem invocar músicas demoníacas, tipo essas que dizem coisas como "que tudo mais vá pro inferno" e afins. Quanto o Ultraje pediu pra incluir no acústico a já anteriormente gravada e já arranjada/ensaiada "Os quatro cabeludos" (versão de "Os sete cabeludos", musiquinha divertida na linha de "Rua Augusta", que também me foi devidamente ensinada quando eu tinha, no máximo, 5 anos), o manquitola não deixou - hoje ele só autoriza super sucessos como "Não tire esses óculos" e "Jesus Cristo". Sem falar que "O Calhambeque" é cheia de referências diabólicas, tipo existem mil garotas querendo passear comigo. Que promiscuidade, né?

O Luiz deu risada da moça aqui chacoalhando a colher e cantando junto, ante a transgressividade do cantor-careca. Keridinho fez do meu almoço uma experiência agradável e virarei cliente.

Mas o happy-hour grátis eu vou passar, tá?

3 comentários:

Marcelo disse...

Eu morava próximo e não conheci essa maravilha...

Shame on me, tsc tsc tsc

Keridinho - com pingos nos is em formato de coração - forévis!

Rainman Raymond disse...

jemt, o keridinho!

foi lá ontem? porque o tio do órgão agora criou um texto de promoção pro happy hour, hein. certamente assessorado pelo pessoal do marketing. uma coisa assim "e não se esqueçam do nosso happy hour hoje a partir das dezoito horas! não paga buffet, não paga couvert, vem com os amigos, se diverte, descontrai, não vai pegar trânsito quando for embora, não vai pra casa sozinho! happy hour keridinho, hoje, a partir das 18 horas, com música ao vivo!"

¬¬

Fred Fomm disse...

Aposto que a carne lá servida é de criancinha. Caso contrário, não haveriam tantos adevogados almoçantes.

No outro lado da Barra Funda há um yakisoba até que muito bem feito, diferente desses de barraquinha mambembe. Mas parei de ir lá pois o balconista, um cearense genérico e até amistoso, tem um lipoma enorme no lado esquerdo da testa.

Trata-se de uma (ultra)benigna bolinha de gordura - no caso acima, uma bolona - mas sem risco nenhum à saúde do cidadão. Macche brutta faccia.

Em meio aos legumes, noodles e às carnes de frango e (espero) vaca, enxergava em meu macarrão a cara do supracitado trabalhador, cujo aspecto híbrido de Quasímodo-unicórnio fazia-me prontamente perder o apetite.

Vai que ele um dia extrai o lipoma e o enfia no meu prato?