27/03/08

Cuidado pra não assustar, tá?

Daí que eu ando com um bode horrendo do meu trabalho. Sério. Não que ele esteja pior ou melhor do que sempre foi: aquilo é SSDD total, desde que eu entrei, e tenho a certeza de que será assim até o dia em que eu sair.


Mas é que há dias em que não sei qual conjunção astral entra em ação para que os fatos bizarros intrínsecos ao mundo jurídico (ou pelo menos à (ínfima) parte dele que me concerne) se multipliquem tal qual gremlins submetidos a um jato d’água. Hoje, por exemplo. Já veio dotôra contar que foi ameaçada pelo cliente que está com dois júris marcados (é, o cara foi indiciado por homicídio, gente boa, vejam só); a empresa que se chama Tabacaria Industrial Tupinambá e cuja sigla é nada menos ou além de "TIT"; e a testemunha snotty ("eu tenho formação em administração de empresas com ênfase em produção", argh) de quem eu tomei depoimento e queria me ensinar como se escreve Paul Valéry - amiga, você mora na RUA Paul Valéry e eu LI esse cara, portanto volte para suas administrações de produção com ênfase em empresas ou whatever.


Tudo isso sem mencionar que, antes de viajar, me comprometi a apresentar pra vocês, em números absolutos, a quantidade de inutilidades que me fossem pedidas por superiores. Hoje foram umas cinco, nos outros dias sei lá, já perdi a conta. Acabei me concentrando em faxinar, fazer upload de fotos e trocar a cor do cabelo. Yeah, esta sou eu, tentando ter uma vida menos ordinária paralela a meu serviço de R2D2. Sei que, deste processo, faz parte eu tentar parar de falar tanto do meu trabalho, sob pena de virar aquelas malas-velhas que saem pra tomar tequila e ficam discutindo o ius postulandi, o pacta sunt servanda e o periculum in mora (é, três expressões latinas aleatórias muito usadas no direito, de presente pra vocês, tó aí).


Só que na tarde do dia que passou deparei-me com o homem-humano falante do pior português do mundo. Manifestou-se oralmente em representação a seu cliente e, na segunda palavra, eu já tava vendo no que ia dar. Eu sei que isso é chato, eu sei que esse é um post chato, eu sei que qualquer coisa envolvendo direito é chata (excetuando-se talvez direito desportivo, porque os presidentes dos clubes sempre se ocupam de dar algum barraco interessante). Mas reparem no estilo e na elegância do cidadão, cuja manifestação eu transcrevi fazendo questão de não mudar nenhuma vírgula (geralmente quando o cara dá muita mancada, eu faço umas correções gráficas e ortográficas por conta, mantendo sempre o teor da baboseira, claro). Quotando:


Data venia, em que pesem os respeitos que se possa prestar, o contraditório ofertado pela reclamada, na verdade, não prima pelo melhor acerto, pois, rebatendo articuladamente, demonstra e prova que nada trouxe à baila com que pudesse elidir a tutela que ora se advoga. Senão, vejamos. 1. No tocante à inépcia da inicial, imporcede tal argumento, tendo em vista que a mesma encontra-se em perfeita consonância com os ditames de nosso repositório processual civil e, portanto, deve ser repelida tal preliminar. Quanto ao ato demissional, em que a reclamada alega haver sido demitida dentro do lapso temporal do contrato de experiência, na verdade infirma-se tal nefasto objetivo, tendo em vista que a mesma, nesse lapso temporal, não poderia ter sido sumariamente demitida face à estabilidade legal, devendo por consequência a ré suportar todos os gravames legais a que incidir; no tocante à verba fundiária, também não resta melhor sorte à ora reclamada pois, pelo lapso temporal legal a que a mesma é albergada pela legislação deve inicidir em todo o seu interregno. Quanto à indenização face ao seguro-desemprego, deve a mesma ser albergada mas em sua forma proporcional, tendo em vista o seu novo relacionamento de trabalho ocorrido em 25.06.2007. Quanto à aplicação dos demais consectários, são consequências de mérito, o qual a reclamante prima a que lhe seja albergado. Nada mais.


Ai, como assim? Eu juro que não entendi nada que ele disse nas duas primeiras frases, e nem é porque não estava prestando atenção (embora não estivesse), mas é porque ele não disse nada mesmo. Depois tem esse negócio de "albergado". Que história é essa de "albergado", o cara aprendeu essa palavra hoje? Qualquer pessoa de minhas relações faria essa manifestação em poucas linhas, dizendo que a inicial é válida por obedecer à lei; que a autora não poderia ter sido demitida por estar em período de estabilidade; que devia ter sido recolhido FGTS por todo o tempo do contrato e que ela deveria receber o seguro-desemprego proporcional. PRONTO. Nada de albergado, de consectários, de data venia. Sem dizer que o processo tratava de CONTRATO DE EXPERIÊNCIA e o cara não usou esse termo nenhuma vez.


Enfim, acho que tal demonstração daquilo que eu ouço corriqueiramente dentro do horário comercial é suficiente para provocar náuseas em qualquer pessoa que tenha sangue e não garapa correndo nas veias. Desta feita, prometo fazer minha parte evitando falar do assunto e, quanto aos alheios, nunca mais me perguntem por que larguei o direito no quarto ano. Que aí eu vou mandar tomar, com areia. Obrigada.

4 comentários:

Marcelo disse...

Quando começou o palavreado do obsequioso e ilustríssimo causídico, lembrei da vez que deram um zoom na mente de Ralph Wiggum e dentro dela só tinha ele girando em torno de si mesmo falando "pato pato pato pato pato pato pato..."

Earl Hickey disse...

oi?

Virgínia disse...

Essa do pato pato pato pato foi ótima, mas sério... eu também me deparo com umas peças de vez em quando que não dá nem pra replicar... momentos em que penso que só Jesus salva.

Fred Fomm disse...

Porque, será, que, todos, os, adevogados, e, juízes, e, demais, rábulas, gostam, tanto, de, usar, vírgulas???

E datavenia é o caralho. Meu nome é Zé Pequeno.