31/08/07

Só sei que, na véspera das minhas férias, fiquei órfã do Papel Pobre.

30/08/07

Daquilo que encanta

O primeiro semestre acaba amanhã. Não insistam, acaba amanhã, já expliquei a razão. E depois de amanhã começam minhas férias. Desejadas, esperadas, merecidas.


Com isso, não quero dizer que espero ser essa viagem um rito de passagem. Passagem de um semestre difícil, cheio de trabalho (muito mais trabalho do que uma pessoa sozinha consegue realizar, by the way); um semestre no qual terminei um namoro longo e, não contente com isso, ainda enfiei a cara na parede uma, duas, três vezes. Um semestre de falta de método, de desorganização, de pouca dedicação aos meus estudos, que são o que realmente me importa. Muita balada, mas pouco sono. Caminhões e caminhões de ansiedade, sonhos desfeitos e expectativas frustradíssimas. NÃO. Quero apenas ir viajar e ter a oportunidade de ser eu mesma num lugar muito longe daqui, e bastante diferente.


O encanto é justamente esse: existir em outro contexto, onde as possibilidades se tornem mais claras. Não que, aqui e agora, elas não existam. Apenas estão maquiadas, embotadas, escondidas pela rotina, pelas obrigações, pelo mau-humor. Fora do meu mundo privativo, no entanto, é patente que tudo pode acontecer. Estar fora do ar, aliás, já é por si só um grande acontecimento.


Sentir saudade faz-se necessário. Prometo que irei. Mas não muita.








(e perdão pela ausência, pelos telefonemas que não dei, pelos comentários que não fiz, pela atenção não dispensada na última semana. Tô semi-ausente pra tentar me organizar. O que, pra mim, é tarefa que beira o impossível.)

29/08/07

Aos ansiosos

Aos que querem tudo pra ontem. Aos que querem tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Aos gastríticos-dor-de-barriguentos. Aos que odeiam esperar. Aos que comem demais. Aos que ficam sem comer. Aos que, como eu, roem as unhas na aula de Literatura Brasileira. Aos que tomam café e fumam. Aos insones. Aos nervosos. Aos neuróticos, neurastênicos e nevrálgicos. Aos que mastigam o drops antes que ele chegue ao final. Aos que excedem o limite de velocidade na via pública. Aos que querem ir rápido aos finalmente (não sou assim mas ah, se conheço quem seja). Aos estabanados que vivem com as pernas cheias de hematomas por esbarrar nos móveis de casa. Aos que tomam leite quente pra ajudar a dormir. E lexotan. E dormonid. Aos que não dormem ainda assim. Aos que se perdem em meio à própria bagunça. Aos inquietos. Aos elétricos. Aos pilhados. Aos ligados no 220. Aos que têm tremeliques. Chiliques. E outros iques. Àqueles com bicho carpinteiro e formigas no underwear. Aos aflitos. Aos que morrem de véspera feito peru de Natal. Aos que rangem os dentes e têm pesadelos. Aos ansiosos em geral.


Devo, hoje, dizer:


Me solidarizo.

27/08/07

Blogger de merda. Pronto, falei.

26/08/07

A garota dos parentesis

Tava aqui re-lendo escritos meus e notei que uso parentesis pra diabo. Sempre que tô escrevendo, um pormenor do texto traz à tona outro, e acabo metendo a coisa pelo meio do parágrafo, entre parentesis, o que faz com que o trecho não raro fique truncado - e sempre fique longo. Claro. Prolixa, eu. Quando se lê, porém, é fácil retomar a leitura a partir do ponto confuso, com apenas um dedo na barra de rolagem. Desfaz-se, assim, o mistério.


Falar comigo, entretanto, deve ser um suplício. Pobre do meu interlocutor: uso parentesis na fala o tempo todo. Ao contar uma peripécia, sempre há detalhes que me pipocam na cabeça como notas de rodapé numa página dum livro de Direito (sim, são cheios delas), e procuro escorregá-los pro meio da história. Até inconscientemente, acho. Assim, pra passar do causo da menina que foi à farmácia comprar shampoo à saga do cara que ela encontrou pelo caminho, aquele mesmo que tinha um labrador preto que foi abandonado no parque pelo homem que perdeu a perna num acidente de carro no qual estava envolvida a filha do dono do supermercado onde o síndico do prédio da esquina comprou Haagen Dazs sabor macadâmia... é um pulo.


Árduo o trabalho de conversar comigo. Foi mal aí.


E não usei parentesis neste post.

25/08/07

Me abraçaste e beijaste na testa.

Ponto. Nada erótico, um quê de fraterno, mas gostei. Os sentidos embotados, e eu numa ótima; você, não sei, posto que sequer te conheço. Senti cheiro de flor branca. Senti que a fila pode andar. Senti que há tempo pra tudo e que as possibilidades são infindáveis-infinitas-intermináveis.

Foi o álcool. Mas também foi você.

Gostei. Mesmo. Obrigada.

24/08/07

Promessa é dívida? I guess.

Assim, conforme prometido, voltei aqui pra falar do Super-Homem, leia-se, papagaiar tudo que o professor fófi de HQ disse na sala de aula hoje de manhã. Tenho uma lista interminável de outras inutilidades a escrever (incluindo uma crônica divertidíssima do Stanislaw Ponte Preta que fiz questão de digitar pra enfeitar meu bloguinho com algo absurdamente legal), dois e-mails difíceis (mas estes prometo assinar, tá?), posts encomendados (“sete poemas pra quem não gosta de poesia”, pelo Cadu, e “sete mimimis”, pelo Mr. J. - o que é isso com o número 7, hã?) e trabalhinhos escolares (o do “Vestida de Preto”, o qual tô enrolando desde maio pra fazer, e o do “Gioconda Smile”, conto do Huxley, sobre o qual tenho que entregar um terrível paper em inglês - se houver interessâncias a dizer sobre estes temas, venho aqui contar). E tenho prova do Magister Meo hoje, pra qual não estudei. Mas tudo isso parece muito sem importância perto do... Batman.

Porque, vejam, eu gosto mesmo é do Batman. Tudo bem que o primeiro fenômeno de vendagem nos quadrinhos tenha sido Super-Homem, e tudo bem que o professor tenha comparado pessoas que não tenham assistido “Superman Returns” a ETs (eu não assisti). Nem aí, ó. O Batman é de 1939, um ano mais novo que o homem-de-aço, e no início não se falava naquele papo de um meliante ter matado os pais do pequeno Bruce Wayne, e ele ter crescido com sede de vingança, que o fez se meter numa roupinha de morcego e sair pela noite batendo nos criminosos - isso veio depois. Nosso Bat-licious (sim, Christian Bale faz jus à fama mas quanto a Michael Keaton, tenham dó, né...) começou aparecendo em uma revistinha chamada Detective Comics (sim, daí o nome mundialmente famoso “DC”) pra depois ganhar seu próprio palco. Disse o professor que ele segue a linha do Dick Tracy: tem uma galeria de vilões ainda mais elaborada e intermináveis gadgets no seu cinto de utilidades. E foi isso que fez do Batman um herói interessante, porque de milionários que combatem o crime a literatura já tinha vários exemplos. O legal do Batman, disse o professor, é que as histórias e as temáticas são bem diferentes, dependendo da fase em que ele está: começou bem sombrio, pra passar a uma fase mais light (a fase Batman/Robin); depois ficou pop (viajou a outras dimensões, ganhou namorada - em parte pra desmentir rumores sobre homossexualismo e ganhou até cachorro - que não era dele, era do vizinho, o bicho certa vez entrou por engano na Bat Caverna e “viu” todos os apetrechos que lá estavam, quando Batman, sem saber muito o que fazer, resolveu aproveitá-lo como ajuda no combate ao crime e meteu uma máscara no focinho do coitado, devido à qual, aliás, seu dono não o reconhecia!); daí decaiu (foi quando veio o filme com o Adam West e o seriado pra TV) e foi transformado em ícone dark pelo Frank Miller.

A Segunda Guerra contribuiu horrores pro boom dos heróis nas HQs. Tirando Batman (porque era rico?) e Super-Homem, todos os demais “foram” pra guerra: Aquaman, Namor, Capitão América... Mas acho que a história mais legal de hoje fica por conta da mala da Mulher Maravilha. Criada por um psiquiatra em 1940, ela representa fantasias porn masculinas: bate em homem e volta e meia aparece toda amarrada...

Entretanto, com o fim da guerra, ao que parece as histórias de super-heróis perderam um pouco da popularidade. Afinal, que graça tinha, depois de enfrentar o crazy nazi que queria dominar o mundo, voltar pra casa e perseguir batedor de carteira? Começaram, aí, a surgir outros gêneros de Hqs, bastante politicamente incorretos até, envolvendo terror, gângesteres, policiais corruptos, adultério... quem se especializou nisso foi um cara chamado Bill Gaines, que herdou de seu pai a Educational Comics (publicação especializada em quadrinhos educativos tais como vidas de santos e etc) e transformou-a na Entertainment Comics, ou seja, desvirtuou a bagaça a não mais poder. Foi o primeiro a falir quando, nos anos 50, a ideologia macartista trouxe a perseguição a toda e qualquer manifestação que pudesse “corromper” o modo de vida americano.

Nessa época, contou o professor fófi, um psiquiatra chamado Fredric Wertham, que tratava e estudava “jovens problemáticos”, teve a brilhante idéia de que tais jovens eram assim porque liam quadrinhos. Ou seja, se um adolescente se tacava do nono andar, era porque estava tentando voar como o Super-Homem. Publicou um livro a respeito, o senado americano instaurou uma “CPI” e os editores de comics, se antecipando a uma possível censura por parte do governo, lançaram um Comic Code, regras sobre tudo o que podia ou não podia ser retratado em HQ. O resultado foram histórias idiotas e pasteurizadas, um grande preconceito em face dos comic books e o fim do que se chama “Era de Ouro dos Quadrinhos”.

Sexta-feira que vem não terei essa aula mas, como o post já está com palavras demais e eu com tempo de menos, volto depois pra falar a respeito do fabuloso Homem-Aranha, que é (quase) gente como a gente, e pra revelar (óh) como surgiu a revista MAD e como ela conseguiu driblar o Comic Code.

Beijoenemmeligaqueeutôatrasada.

(sim, mudei o leiáute; sim, há falhas; não, não dá pra consertar agora).

22/08/07

Eu, charlatã

Rhamyra "Shi" Toledo me deu um puta susto com a mensagem na caixa postal, "uma notícia bombástica sobre seu trabalho final de FonFon". E "bombástica" means "bomba", right? Wrong, na verdade o cara ("cara" = professor, que aliás é um "cara" bem legal e acessível) gostou tanto da minha teoria sobre a língua presa do Lula, que não só me deu 8,5 malgrado aquela transcrição fonética porca que eu entreguei, como disse que quer que eu vá "apresentar" o meu "trabalho" (pela quantidade de aspas aqui você já deve estar reparando na tosqueirinha da coisa toda) num simpósio X aí.

E eu, a charlatã, irei, claro. Irei fazer cara de conteúdo e ares de sabona, repetindo pruma platéia o que todo mundo já sabia: que o Lula fala trocando os sons de consoantes fricativas alveolares (hein?) por sons de consoantes fricativas linguodentais. Em suma, ele fala affim. Direi que fiz uma comparação entre gravações de 1992 e de 2006 e que a porcentagem de ocorrência dessas trocas, na primeira, é muuuuito maior do que na segunda - ou seja, ele pôs comida na mesa de muita fonoaudióloga nestes 14 anos. E todos me aplaudirão (ou não). E eu agradecerei à Academia, aos meus pais, ao diretor do filme e a meus co-stars com quem foi delicioso fazer esse filme.

Tá, agora é sério. Sem nariz empinado (mas sem falsa modéstia) foi uma felicidadezinha meio torta, primeiro porque eu nunca gostei de Lingüística, e depois porque não me acho merecedora de tal honraria visto que vomitei esse tal trabalho em três horinhas no máximo. Na real, foi um belo dum servicinho. Queria mesmo é que um professor de literatura prestasse atenção em mim e me convidasse pra fazer algo que realmente me motivasse e que não tivesse a ver com contar consoantes fricativas. E quando a Shi me contou, eu ri, ri; depois no telefone com a Fernanda eu (again) ri, ri, ri; pois que odeio Fonética e pois que as coisas todas realmente tão saindo BEM bagunçadas...

Todo mundo anda falando do Rob Fleming. Vou papagaiar e falar também. Eu sou Rob Fleming. A Amber é Rob Fleming. A Chu é Rob Fleming. O Rob Fleming é o Rob Fleming e até você é o Rob Fleming. Tirem o Nobel do Steinbeck e dêem ao Nick Hornby, porque ele conseguiu criar o personagem mais universalizador que já existiu (só pra constar, ironia mode on, tá?). Nem Georg Lukács, com sua dialética-massacrante-do-primeiro-anista-de-letras conseguiria imaginar tamanha façanha. Mas a verdade é que todo mundo é Rob Fleming, porque todo mundo fica com a pessoa X imaginando como seria ficar com a pessoa Y. Pelo menos uma vezinha, vai. Todo mundo um dia já quis saber o que o(a) ex-n pensa. Todo mundo tem recalques fleminguianos, com menos ou mais intensidade, em mais ou menos momentos.

Eu aqui, pasmem, ainda por cima levo em consideração o que dizem essas ex-bocas. Me amedrontam o ainda te amo, o você é linda e o (esdrúúúúxulo) você me intimidava. Até parece que eu intimidava alguém, carajo, eu tenho 154 centímetros de altura. Mas enfim: no mundo de Rob Fleming, assim como no meu, cada um diz o que quer, escuta o que quer, faz o que quer (se quiser), e se faz de idiota quando quer. A bagunça está instaurada e nenhuma lista dos 5 mais memoráveis pés-na-bunda, ou das 5 quaisquer coisas de melhor ou pior que há consegue ordenar esse caos. Mas Rob Fleming tenta pensar que sim, eu também, e você também.

Charlatães, nós: eu, você e Rob Fleming.

Rob Fleming pra presidente.

21/08/07

messenê

(porque minhas próprias palavras continuam com gosto de jiló)

Júlio diz:
henry rollins


Júlio diz:
eu acho que o cara certo pra vc, é o henry rollins


Júlio diz:
tava pensando nisso agora


joo diz:
ahahahhah vou mandar um email pra ele


joo diz:
pq vc acha isso?


Júlio diz:
ele é escritor, inteligente, minhas irmãs acham ele o pão do punk rock e ainda por cima ele intimida as pessoas


Júlio diz:
e tem 1,63

Júlio diz:
:)

mais quotes

(porque minhas próprias palavras, hoje, teriam gosto de jiló)

Tô fazendo PONTO. E pra você, que é amiga, é de graça.
(Gabriel, após minha indagação sobre o que diabos fazia ele ali, parado na porta da sala de aula.).

O Flerte te mandou um beijo.
(Fernandinha, via Embratel, sobre o beijo que me mandou o homem da camisa marrom.).

Eu não tenho saco pra advogado. Se vier advogado querer despachar liminar no final do meu expediente, não quero nem saber, vou mandar voltar depois.
(uma amiga da Helô, que entrou no direito no mesmo ano que eu, e acaba de passar no concurso pra magistratura, mas sequer tomou posse ainda. Depois ainda perguntam por quê eu larguei a São Francisco...).

As roupas de gestante da Ana são um horror... toda vez que ela fica grávida, tem que usar aquelas porcarias...
(minha tia, sobre minha prima um ano mais nova que eu, e que já tem três filhos... de três pais diferentes.).

Tal bocejo de gato

Um amor tranqüilo tal bocejo de gato. É o que eu quero. Dá pra ser?

Sem a burocracia do compromisso e das conveniências. Pra quando der vontade, em mim e nele. Amor de banheira, cinema, caipirinha, praia, Big Mac, chuva. Dizem que romances foram escritos pra serem lidos individualmente mas, pro meu amor, eu leria um pedaço de Cem Anos de Solidão a cada noite, e desenharíamos a árvore genealógica dos Buendía com caneta Bic nas costas da mão, e sei que ele riria dos meus trejeitos de leitora contumaz e espirros de moça rinítica. Eu, que não sou santa, riria das manias dele, pois que todo mundo tem manias. Sonharíamos a curto, curtíssimo prazo, no máximo com as 18 badaladas da sexta-feira seguinte, hora de cair nos braços um do outro.

Queria um amor tranqüilo, clichê que seja, que me deixasse dormir até tarde manhã após manhã, sem dar bola pro dia seguinte - quando ele chegar, a gente vê. Um amor tranqüilo que só não fosse tranqüilo por entre os travesseiros brancos, hora de distribuir mordidas nos lábios e nas pontas dos dedos, luzes acesas ou apagadas, ao sabor da ocasião.

Cada ocasião, uma ocasião.

Queria um amor. Mas só se fosse tranqüilo.

Dá pra ser?

20/08/07

Hoje não vai ter post aqui. Mas, em compensação, há dois no Day Tripper, bloguinho deveras alto-astral.

17/08/07

Reality delights.

Eu havia dito que é besta quem não gosta de cutucar o desconhecido. Afinal, a vertigem é necessária.

Reitero.

Deve haver, porém, um certo momento, quase uma freqüência, onde o que é conhecido é desconhecido e vice-versa, ocupando os dois o mesmo lugar no espaço, ao mesmo tempo, com a mesma força e intensidade. Três segundinhos nos quais o mistério despe a máscara.

Aí, a gente fica esperto e espia.

Shall I try?

CJE0539

Depoimento da testemunha do(a) reclamante: Sr.(a) Zé das Couves, R.G.xxxxxxxx, brasileiro(a), estado civil: "amasiado", residente e domiciliado na Rua X, 999, casa 69, São Paulo/SP. Advertida e compromissada, disse que: trabalhou na reclamada por aproximadamente 10 meses, tendo iniciado o trabalho em 2006, não se recordando o mês; que o depoente trabalhava das 08:00 às 20:00 horas de segunda-feira a sábado, com intervalo para refeição sem tempo determinado; que trabalhou com o reclamante por apenas 30 dias e que o reclamante fazia aproximadamente o mesmo horário que o depoente; que o depoente e o reclamante tinham um piso de pouco mais de R$400,00 mensais e ganhavam por comissão pelo serviço realizado; que o depoente ganhava em média R$1100,00 por mês; que não sabe dizer quanto o reclamante recebia por mês; que às vezes o intervalo era um tempo superior a 01 hora e às vezes em tempo inferior a 01 hora, dependendo de como estava o serviço. Nada mais. ____________________________________________________________________________________

Então.

Tão vendo isso daí, aí em cima?

É isso que eu faço o dia inteiro. Eu sento a bunda na cadeira e tomo depoimentos dessas pessoas, praticamente do meio-dia às cinco da tarde. Eu faço milhões de outras coisas também, na maioria decorrentes desses depoimentos, mas é isso que eu passo a maior parte do meu dia fazendo.

Uns bons 50% sentam-se na minha frente e mentem a não mais poder. Os outros 50% dizem a verdade, mas nem sempre melhoram a vida de alguém com isso. Talvez não seja como em Gil Vicente, onde o Todo Mundo é mentiroso e o Ninguém diz a verdade, porém o simples fato de que uma das partes está quase sempre mentindo deslavadamente e que eu precise perder meu tempo com isso, me irrita sobremaneira.

E desculpa, mas peguei bode. Bode de gente que não usa desodorante, não escova o dente, e que vai dar depoimento na Justiça de miniblusa com as carnes celulíticas e cheias de estrias todas à mostra (a bem da verdade, não deviam ir a lugar algum assim). Peguei bode de çerumano (né, Chu?) que não sabe o próprio endereço e quando eu pergunto o "estado civil", diz Amazonas, e me obriga a indagar delicadamente "o senhor é casado, solteiro, viúvo...?" pro çerumano responder "amasiado". É feio? É. Mas não interessa, peguei bode eterno, e pronto.

É por isso que abandonei as drogas (leia-se Direito) e fui fazer outras coisas. Se vai dar retorno financeiro não sei; é bem provável, aliás extremamente provável, que dê muito menos do que se eu tivesse me tornado uma bem-sucedida (e muito mal-comida) profissional do direito. Mas em um ano e meio, o retorno pessoal já foi muitas mil vezes maior do que tive em 8 anos mexendo com a mentira, a fraude e a iNguinorância alheias.

Não estou me referindo apenas à faculdade de Letras. Fui estudar italiano sozinha, voltei a correr, a costurar (ainda que mal e porcamente) e a escrever. E estou sempre procurando coisas interessantes pra fazer com meu tempo livre, ainda que este se resuma a umas horinhas da manhã, num determinado dia da semana.

E foi isso, essa sigla-título do post, que arrumei pra fazer esse semestre. É o código da matéria Editoração em HQ, dada na ECA-USP, e disputadíssima, mas na qual consegui me matricular e compareci hoje pela primeira vez (porque minha matrícula tava numa situação de zona tal que eu nem sabia se tinha conseguido vaga). Pra dizer a verdade, eu tinha um certo nojinho da ECA, daqueles nojinhos que a gente pega sem conhecer, sabe? Um pouco pelas coisas que a Fernandinha me disse de lá; um muito, pelo fato da Rata estúpida ter feito jornalismo ali (tem gente que, juro, deve pagar pra passar na FUVEST). Quanto a isso, ainda não tenho opinião formada, e não posso afirmar se o nojinho continuará ou não. Quanto à matéria, já sei que vai ser bem interessante.

Mais uma das minhas empreitadas interessantes e sem aplicação prática, diria meu pai engenheiro. Well, talvez, mas o professor (um tiozinho que é o suco da fofura) tem o emprego que eu queria ter: recebe do Estado pra pesquisar e dar aulas sobre HQs. Que, convenhamos, é muito mais divertido do que transcrever bafafá de gente mentirosa. Engraçado é que nunca desgostei, mas também nunca fui particularmente fã de quadrinhos. O barato todo, eu acho, é aprender sobre um tipo diferente de linguagem com alguém que entende do assunto, e tentar perceber os pormenores artísticos e (por que não?) histórico-sociais por trás do negócio todo.

Vamos brincar, então. Transcrevamos o conteúdo que aprendi hoje, na forma de depoimento testemunhal. Em CJE0539, hoje, aprendi que: a linda tirinha "Little Nemo" completou 100 anos em 2005; que nos EUA há grandes agências de distribuição de quadrinhos chamadas Syndicates; que com os Syndicates buscava-se tratar de temas universais como infância, família, universo feminino, animais antropomorfizados e aventura; que o personagem Ofissa Pupp da tirinha "Krazy Kat" (1912) é um cão policial, assim chamado pelo gato protagonista pra imitar o sotaque da Flórida; que "Krazy Kat" não era muito popular, mas foi mantida no jornal porque o grande Hearst gostava dela; que a tirinha "Pogo", de Walt Kelly, aborda temas intimamente ligados ao momento americano da década de 50 (tais como o macartismo e a questão cubana); que a nossa "Família Buscapé" se chama, na verdade, Lil' Abner e que ninguém menos do que John Steinbeck era fã de seu autor, o desenhista Al Capp; que as tiras femininas tais como "Blondie" (1930) eram desenhadas por homens e retratavam a maneira pela qual esses homens enxergavam as mulheres: lindas, trabalhadoras e cujo objetivo na vida era achar um marido (sentiram uma vibe Revista Nova aqui, hã?) - tanto que, normalmente, quando as protagonistas se casavam, a tira acabava; que "Tarzan" (Hal Foster, 1929) e "Buck Rogers" (Dick Calkins e Phil Collins - não o cantor, 1929) não eram personagens originais, mas sim aproveitados da literatura pulp; que Buck Rogers introduz a ficção científica na HQ e já apresenta a estrutura herói/namorada/cientista/vilão (reafirmada com Flash Gordon/Dale Arden/Zarkov/Ming; que Chester Gould, o autor de "Dick Tracy", era tão imaginativo que funcionou como consultor da polícia de Chicago na resolução de crimes, chegando a ser condecorado por isso; que Dragon Lady, a vilã de "Terry e os Piratas" (de Milton Carniff, conhecido como 'Rembrandt das HQs"), foi largamente inspirada em Marlene Dietrich; que todas as histórias de "Spirit" têm 7 páginas, sendo a primeira delas uma splash page; que o "Fantasma" foi o primeiro herói mascarado e o "Mandrake", o primeiro herói com poderes; que todos os personagens citados foram veiculados em um mesmo e único tipo de mídia, o jornal; que os comic books propriamente ditos começaram como coletâneas de tiras reunidas em uma revista a ser distribuída como brinde por uma marca de sabão em pó; e que essas revistas em quadrinhos foram o primeiro produto criado tendo em vista o aborrescente, ou seja, aí foi reconhecido o segmento aborrescente como segmento consumidor. Nada mais.________________________________________________________________________________

O referido é verdade e dou fé.

E sexta que vem, conto pra vocês a respeito do Super-Homem.

16/08/07

Reality bites

Tento, aqui, reproduzir o que já escrevi antes. Não as palavras em si, mas o tom que a elas, um dia, em passado quase-que-nada remoto, foi dado. O tom de quem entra em terreno inóspito, pisando com cuidado o pé-35 descalço, mas já aprontando um meio-sorriso: como é delicioso o "não saber".

Imaginar o que pode. Brainstorm nas possibilidades. Pensar no "e se" (e se eu entrar por aquela porta ali, hein?). Criar uma, não, várias fantasias diáfanas, vaporosas e cheias de paetês. Embrulhar-se nelas, uma a cada dia, só pra pagar pra ver o que acontece. Ah... a emoção de não saber.

Encher a boca pra dizer "eu quero" do mesmo modo que se enche a boca do mais doce e cremoso chocolate branco. Até a náusea. Lambuzar os lábios, as bochechas, o nariz, os cabelos, as mãos. Eu quero. Sim, eu quero o acaso-cremoso.

Este acaso que fascina. O ato de sentir que a chance existe. Eu quero! Cubram-me de acaso, provoquem-me frio na barriga de minuto em minuto. A vida sem vertigem é como tequila sem sal. Tragam-me vertigem, então, pois que necessária.

Invariavelmente a gente se fode bastante-bem-fodido. Claro. Entretanto, cedo ou tarde metemo-nos, novamente, a cutucar o inóspito, o misterioso, o desconhecido. Assim gostamos. Besta de quem não gosta.

Não, a gente não aprende.

Nem queremos.

15/08/07

Eu supernanny?

De criança que não sabe brincar, a gente esconde o brinquedo.

(maiores informações por e-mail, se e somente se eu estiver a fim).

14/08/07

Agradecimento público

Ao Marcelo Paradella, por praticamente ter salvo minha vida, pelo menos no que concerne a Fonética e Fonologia I.

Agora dá licença que eu vou ali vomitar meu trabalhinho, e já venho.

12/08/07

Assim é, se lhe parece.

Tá, eu sei que andei rasgando a maior seda publicamente pro meu pai, mas devo chamar atenção, também, pro trabalho que esse homem me dá. Ontem rodei o shopping kosher todinho, com um gigântico Frozen Nutella do América na barriga, tentando achar um mimo de dia dos pais pro infeliz. Claro, porque além de orgulho e inúmeras alegrias, também já dei a ele diversas calças, camisas, camisetas, sapatos, perfumes, gravatas, porta-retratos, enfim, tanta tralha que, juro, torna cada dia dos pais, Natal e aniversário uma tarefa deveras ingrata. Quase tive um momento de glória suprema ao ver na fabulosa vitrine da L'Occitane (sim, meu daddy-o é um homem fino, ha) um jogo de barbear para viagens, contendo dois tubos de uma gororoba francesa qualquer e um lindo e vintage pincel de barbear. Carlos Leonel e Nathalia aplaudiram. Já prestes a entrar na loja com o cartão de crédito em riste, lembrei que Natal passado comprei um pincel de barbear hipoalergênico e cheio de frescura, com um belo cabo de madeira clara. Carlos Leonel e Nathalia suspiraram, a caminho da vitrine seguinte.

Acontece que acabei comprando um presente do qual acho que ele nem gostou. Sabe o daruma, aquele boneco japonês do qual você pinta um zoio e, depois que seu sonho se realiza, você pinta o outro (tomando cuidadinho, claro, pra não sonhar algo de muito difícil, pois o pobre boneco assim não correrá o risco de permanecer zarolho-caolho pra sempre)? Então, comprei isso daí. Mas claro que não era um daruma convencional, era um daruma de designer, tá? E a artista plástica (pheena!) o fez com os doiz zoioz fechadoz, "pra que os sonhos nunca se percam", explicou ela. Me convenceu, comprei, escrevi uma dedicatória bonitinha e depois foi só admirar a cara de ué do meu pai, examinando o bonequinho gordinho de porcelana, enquanto comíamos nossos sushis no Nanako (altamente recomendo, the best buffet de sushi ever).

Talvez não tenha agradado porque era um presente meio idiota mesmo. Meigo, mas meio idiota. Ou porque meu pai não seja hábil em sonhar - o que, malgrado eu o ame muito, acho que ele nao é, realmente. Tenho percebido, aliás, uma certa onda de caretice no ar. Uma proliferação de comportamentos obtusos, que torcem o nariz pras possibilidades, que tomam pra si uma verdade absoluta X qualquer e seguem teimosamente com ela, chateando os transeuntes.

Há o outro legume da faca, though. Se a gente for querer dizer palavras bonitas, podemos assinalar que o mundo é feito de dicotomias e que uma delas é a dicotomia caretas vs transgressores. E assim como o careta faz questão de ser quadrado, o transgressor faz questão de transgredir. O motto deles deve ser o tal clichê de que regras foram feitas pra serem quebradas. Enfim... dicotomia de malas.

Acho que era o que todo aquele povo estava tentando fazer ontem, na Royal. Transgredir. Sério, ainda não tenho certeza se recomendo a Royal (cheia de critérios, disse Luciane). O lugar é até interessante, um salãozinho pequeno no segundo andar de uma galeria comercial no centrão. Pistinha, sofás, decoração sem firulas, vista pra Av. São Luiz. Pelo menos te deixam escolher a maneira através da qual você será ripped off, deixando ao gosto do freguês pagar entrada ou consumação - não diria que é uma grandessíssíma vantagem, visto que uma dose de Smirnoff Black custa risíveis R$23 e não tem Absolut - desculpem, mas Cîroc de cu é rola.

Chegamos meia-noite e meia e ao cabo de 40 minutos o zoo, quer dizer, o lugar estava cheio de detestáveis almofadinhas metidos a modernos, passando por cima dos meus 154 cms sem pedir desculpas, me dando altos banhos de "Red" com energético e batendo suas bolsas-oversize-da-moda em mim. DJ Zé Pedro com uns estrobos pendurados na cara, mái godi. Mandando até bem, inicialmente, dance music muito velha e muito lado B, que a gente gosta de ouvir pra lembrar que um dia já foi aborrescente. Daí, nossa, começa a tocar samba e todo mundo "vira" preto como que num movimento de prestidigitador. Depois vem a "boladona" e todo mundo "vira" favelado do Morro Dona Marta, só faltaram as meninas da fina flor da sociedade paulista começarem a tirar a calcinha. E olha, se eu vi direito, tinha UM preto no lugar... tirando os funcionários, claro (é, estou sendo altamente preconceituosa nas minhas asserções, mas eu penso assim mesmo e por enquanto ainda não tô a fim de escolher entre ser politicamente correta ou assinar pseudônimo). Enfim, não tenho saco pra esse povo que vai fazer o eclético em baladinha endinheirada do centro.

Mas o meu mau-humor... vcs sabem. Ele tem aparecido como um primeiro e singelo sinal de que outra coisa está prestes a irromper... em geral um ataque de riso dos bravos. Que veio, logo após o momento de revolta de um çerumano (termo genialmente pensado pela Chu), o qual cansou de me perseguir pelo lugar e manifestou o seguinte desabafo, abre aspas: você se acha mas não é nada, fecha aspas. Zentchi, o que foi aquilo, hã? Acho ótimo que esse pessoal saia no sábado à noite pra ter momentos de emoções fortes e atitudes William Wallace (quotando, "freeeeedoooommmmm!!!!") mas caracoles, eu tava era louca pra achar alguém com quem eu pudesse conversar e rir do fato de estar ali, achada-e-perdida às duas da manhã no centro de São Paulo, usando calça legging e tomando caipisakê na falta de Absolut.

Claro que não achei ninguém pra conversar. Achei um par de braços bonitos, costas idem, língua descartável. Como sempre, não me orgulho e não me desorgulho, contudo teria preferido um bom papo ainda que sem a parte da língua (e é isso, também, que uns e outros andam misunderstanding). Minhas amigas, que não querem dar o braço a torcer ao admitirem que a baladinha da moda é, na verdade, uma bela porcaria, juraram de pés juntos que adoraram - a quem querem enganar não sei, pois eu estava lá e vi a nhaca estampada na cara delas.

Rimos, porém. Pra fazer valer o delineador e o rímel, claro! Ri sarcástica, ri divertida, ri pândega, ri sagaz, ri mal-humorada. Afinal, mau-humor também ri, sempre por último e (muuuuito) melhor.

10/08/07

Armando Bagunça

Lembro-me da primeira temporada dos Simpsons. Eu era adolescente, e gostava (ainda gosto) de assistir os caras amarelos na FOX. Um canal de qualidade péssima, aliás, que cortava os programas no meio pra enfiar o comercial. Sem falar na dublagem, que era muito fraca.


Vejam os trotes telefônicos do Bart, por exemplo. Ele discava o número e pedia pra falar com Stu. "Que Stu?", queria saber o desavisado, do outro lado da linha. "Stu Pididiot", dizia a peste. Mas a Herbert Richers, ou sei lá quem dublava a bagaça, nos brindava com um "Armando Bagunça!".


Quem gostava de repetir as piadas do Bart Simpson em português era o Michelson, um cara pra lá de engraçado que eu conheço desde os dois anos de idade, cujo livro favorito é a Constituição da República Federativa do Brasil, particularidade a qual ele faz jus trabalhando pra Advocacia Geral da União. Na sexta série, a diversão dele era passar a manhã sentado atrás de mim na sala de aula, papagaiando os trotes do episódio da noite anterior. Armando bagunça, Armando confusão, Armando outras coisas impublicáveis sob este sol que nos alumia.


Mas "Armando" é, na real, uma pessoa, vejam só. Longe de ser meramente uma piada na boca de Bart Simpson, é um personagem tão verídico e quase tão fantástico quanto Albert Einstein Vieira da Silva - aqui abre-se parêntesis para a superstição de bater na madeira e desejar vida longa a Armando, coisa que a Albert não mais é possível.


Armando foi pai pela primeira vez aos 27 anos, dois a menos do que carrego hoje. Certo novembro, nasceu-lhe a filha. Bebê ranheta, que gostava de ser carregado de bruços. Armando ninou-a, alimentou-a, cortou-lhe os cabelos loiros em forma de tigela quando ela pegou piolho na escola.


Ensinou-a a gostar dos Beatles, mas não conseguiu com que ela apreciasse pepperoni, Formula 1 e cerveja. Levou-a ao Morumbi, ensinou-a a xingar o juiz de ladrão e surpreendeu-se quando, quinze anos depois, ela o chamou de filho-de-uma-grande-puta. Levou-a ao Morumbi novamente, no dia do show do Menudo, onde foi sua vez de aprender "Não se reprima" na marra e debaixo de chuva.


Ensinou-a a não se contentar com 7,5 se podia tirar dez. Ensinou-a, quase sem querer, a exigir demais de si mesma. Treinou com ela o movimento retilíneo uniformemente variado até que o dez em física efetivamente viesse.


Mas foi embora, fê-la sofrer, fê-la chorar. Preteriu-a. Depois voltou. Depois foi-se de novo, inconstante. Disse-lhe palavras duras, envolveu-a em assuntos com os quais ela não tinha a ver. Machucou-a, e ela demorou a sarar. Emocionou-a sempre.


Não, ele não era seu herói. Antes seu anti-herói, ela descobriu quase trinta anos depois. Ela o procurava para a caipirinha do domingo e para o conselho sobre a vida profissional, já que sabia-o casado com o trabalho. Em relação à vida pessoal, porém, procurava fazer todo o contrário do que ele havia feito. Rancoroso, ele - e com ele, a filha aprendeu a despir-se das mágoas, comprovadamente dolorosas. Ela mirou-se nele como num espelho de duas faces.


Domingo ele andará por outras paragens... casado com o trabalho. E ela o amará de longe. Vago, ambíguo, como tantos outros pais mas, ainda que de maneira trôpega, o melhor pai do mundo.


Happy father’s day, daddy-o.

Tomara

"Tomare"
Que um dia eu passe e te veja
sentado ali no meio-fio
de uma rua nos intestinos da Liberdade-japa,
a cara entupida de Çangue de Boi,
as barbas respingadas de farofa gorda
e o olho remelento de caca verde


"Tomare"
Que você chore,
Se descabele
e que aí a Comlurb passe,
te meta no caminhão
e te leve
seu corno de mierda.




(ahahahah eu e esse meu jeito Paulo Vanzolini de ser)

Autolimpante

Eu em suspenso.


Eu pendurada na parede (não a verde, desta vez), que nem foto-mimosa.


Estudo a mim mesma, sem um pingo de egocentrismo. Só subjetivismo.


E descubro que quero rir.


Quero, sim, me dobrar, me contorcer de tanto rir, perder o riso, a pose, a constância, o prumo; inchar como um saco de risadas velho e gasto pelo uso, despir a máscara (funcionária exemplar, moça casadoira, garota estudiosa), ficar desnuda-diáfana; parar, fungar, rir de novo até o final do fôlego. Rir da cara dos outros, da sua cara, da minha. Roxa de rir. Verde de rir. Sépia de rir.


Rir até limpar. Rir-faxinar. Rir-desengordurar-desempoeirar.


Eu autolimpante.





(Creditem o excelente humor a Mr. Cadu-Xuxu e às bobagens pós-sinusite. Se ainda não estava sarada, sarei!)

09/08/07

Drummondianas 1

A rua que atravessava
a cavalo, de galope.
Seu relógio. Sua roupa.
Seus papéis de circunstância.
Suas histórias de amor.
Há um abrir de baús
e de lembranças violentas.
Porém nada dizia.

No deserto de Itabira
as coisas voltam a existir,
irrespiráveis e súbitas.
O mercado de desejos
expõe seus tristes tesouros:
meu anseio de fugir;
mulheres nuas; remorso;
Porém nada dizia.

Pisando livros e cartas,
viajamos na família.
Casamentos; hipotecas;
os primos tuberculosos;
a tia louca; minha avó
traída com as escravas,
rangendo sedas na alcova.
Porém nada dizia.


(trecho de “Viagem Na Família”, by CDA)


Evocação da figura do pai, antes patriarcal do que paterna, guardando distância afetiva em relação aos demais membros da família e relacionando-se com duas mulheres concomitantemente, a esposa legítima e aquela que lhe oferece favores sexuais.





Grande coisa, hein.


Hoje, um homem pode ter várias mulheres.


Aliás, uma mulher pode ter vários homens.


E em tempo, um homem pode ter vários homens... e uma mulher, várias mulheres.


Independente Futebol Clube.


Só pra atualizar Drummond, claro.

Cuspe.

O advogado de Albert Einstein Vieira da Silva adentrou, nesta quinta-feira ensolarada, à sala de audiências do Juízo, dizendo que seu cliente fora encontrado morto no banheiro de seu (seu, dele, Albert Einstein) apartamento, enforcado, o pescoço envolto num fio grosso de cobre, os pés balançando no ar.


Não seria a cena que eu imaginaria. Se um personagem meu de um livro do futuro tirasse a própria vida num cubículo sanitário, seria como o Stanley Uris do It (o melhor do Stephen King): pulsos cortados e muito, muuuito sangue na banheira e nas paredes. A vida real, porém, quis de outra maneira, quis que fosse Albert Einstein Vieira da Silva, e não Stanley Uris.


Você aí. É. Você mesmo. Alguma vez em tua existência, já te sentiste desarvorado? De-sar-vo-ra-do? Dã, é claro que sim. A única diferença entre nós dois é que eu venho aqui e exponho isso pra torcida do mengão (tonta-mór), e você consegue guardar o ouro pra si e manter essa sua fleuma quase britânica. Tá certo, mas isso já é outra estória. Estória com E, eis que as histórias com H são as que comprovadamente ocorreram, mas nem por isso nos soam menos fantásticas - é até bastante fantástica a história com H de Albert Einstein Vieira da Silva.


Assim é que Albert Einstein Vieira da Silva me desarvorou. Nome verídico, aliás, impresso no registro geral. Melhor que uma aberração qualquer, como Danielson, Sidinelson, Maxuelson. O dia me havia começado bem, com um par de botas novas de couro preto - há eras eu não ganhava um presente, afora toblerones. Até respirando eu estava, já que um otorrinolaringologista (adoro, adoro, experimenta falar três vezes segurando o ar) deveras hábil recauchutou minha napa. Easy like a sunday morning, pelo menos até que Albert Einstein Vieira da Silva cruzasse meu caminho. Ou, antes, o advogado dele.


O homem enforcado, hoje, não é arcano do tarot, mas um cadáver no banheiro, que talvez tenha visto o que é a verdade nos minutos que antecederam sua morte. Minha sensação, lhes digo, é de que as pessoas querem mesmo é ser enganadas. Dizer a real parece equivaler a um cuspe na cara alheia. Um cuspe verde, viscoso, fedorento, escatológico. Tudo aquilo que é palpável amedronta (embora nem sempre vá ferir). É o boogeyman do homem adulto. Bagunça, bouleversa.


Quando fui lavar o rosto, vi a mim mesma no espelho, espantosamente magra, pra minha própria surpresa. Perguntei a mim mesma se quero ser Marco Leonardi em Nuovo Cinema Paradiso e esperar que a janela se escancare, para depois ver minhas cartas serem devolvidas sem que tenham sido abertas. A mim apetece a verdade, sabem? Sem fios de cobre.


Certos detalhes, contudo, poderiam vir encobertos por alguma maquiagem, admito. Tais como esse "dotô" respirando aqui ao meu lado, enquanto tomo minha sopa, e que se agarra incessantemente às próprias calças que insistem em cair. Minha face avacalhada, aliás, torce pra que isso aconteça.


Sinos dobrem por Albert Einstein Vieira da Silva. E alguém me arruma um fio de cobre, por favor.

Saudade tátil.

E recuerdos da parede verde. Verde-água, acho eu, no fundo da minha íris. Adoro essa da parede verde, porque é tão ininteligível e ambígua quanto pode ser. Coisas de solilóquios meus. Parede verde-água na íris, língua molhada no ouvido. E jazz.

Preto e prata. Os olhos eram castanhos, claro. Todos sabem ser estes os mais bonitos, por nada ordinários. Um pouco mais de jazz, por favor, on the rocks. All that jazz. Meus pés-35 descalços, gélidos de ar-condicionado. Se eu ia em alta velocidade, nem reparei. Saber pronde estou indo... pra quê?

Subida. Descida, just like a coaster. Divaguei, respirei, suspirei.

Parece que respiras tu, afobadamente. Certeza não há. Dize-me, então. Com a língua molhada a melecar meu ouvido. Eu quero, pois que sinto saudade tátil.

Se não dizes, fim. Tudo igual. Porém (espantosamente) diferente.

08/08/07

Para o Cadu, com carinho.

Automatic pilot... automatic pilot... here it is!

Antes que eu me esqueça.

Nuió miou. Outro destino em vista para as férias. Colocando tudo nos devidos lugares, o post a respeito não vem escrito aqui, mas sim no Day Tripper. Enjoy. Or not.

07/08/07

Napa.


Essa aí ao lado sou eu, pra quem não sabe. Acredito que todos os meus 10 leitores (10 eu tenho, vá...) já tenham me visto, nem que seja em foto. Portanto, nenhuma novidade. Aliás, reparem, que me pegaram falando. Que sou uma matraca sem modos também não é novo pra ninguém.

Agora, isso aí no meio da minha cara é meu nariz. Como vocês talvez 'estejam notando', ele é bem grandinho. Simpático, quem sabe até interessante, eu gosto dele, porém o bichinho é bem grandinho - sendo que o ângulo da máquina fotográfica ainda deu uma favorecida. É kosher, uma marca da minha herança 12,5% judaica, da qual também guardo o sobrenome (em hebraico, significa algo como "deus me ajude" ou whatever).

Em Ilhabela, onde essa foto foi tirada quando da Páscoa desse ano, minha napinha funciona perfeitamente bem. Ali, quase nem lembro do desvio monstro no meu septo, que um otorrinolaringologista (minha palavra predileta) certa vez quis operar e me viu sair correndo porta afora. Na saudosa Ilhabela, gente, eu até respiro.

Aqui na terrinha, a coisa é diferente: ar-condicionado, processo, papel, carpete, livro. Rinite, sinusite, dermatite e todas as ites. Congestão. Dores nos seios da face. Juliana respirando como um filhote de pug. Uél, talvez pior. Capturando ar pela boca, desajeitada e desastradamente. Indo parar no O2 bem no meio da tarde de expediente.

Minha napa kosher já me pregou altas outras peças. Já inflamou de rinite às vésperas de uma festa imperdível. Me achando a ultimate descolada, taquei um bandeidão e fui. O primeiro "o que aconteceu no seu nariz, meuô?" veio do Mingau, aka baixista mais legal ever. Comecei a rir no meio da mentira "entãããão, ralei a cara no tatame na minha prática de kenpô havaiano hoje de manhã"... e foi a desculpa oficial pro resto da noite, disparada pra todo lado e em direção a qualquer incauto que vinha perguntar. Porque rinite infecciosa, além de não ter nenhum glamour, é algo de nojento.

Tarefa nada fácil ser dona de napa grande e rinítica. Primeiro, porque ela parece muito maior quando inflama. Depois, porque preciso evitar certas coisas em prol de uma respiração saudável. O lindo e chiquérrimo piercing, ha, nem pensar. Escalar o Everest sem oxigênio suplementar, então...

Amanhã há, para mim, três baladas, uma apostila de russo bem gorda e uma licença médica. Escolho esta última, que fica melhor em mim no momento, eu e meu narizão estamos bem bonitinhos enfeitados com ela. Provavelmente viverei, e tudo isso será apenas mais uma encheção de saco proporcionada pela minha genética ruim - o nariz de babai é igualzinho.

03/08/07

Um post só de tags

En-tãããããooo........


Vai ver é coisa do demônio sim, quotando o SMS da Tia Amber... mas o fato é que o blogspot não fununcia mais lá em casa. Tudo fununcia, conta Google, Blogger, Orcu e Gmail, menos o dito cujo referido, o que torna a tarefa de postar e de ler meus blogs amigos muito mais complicada. Claro que deve ter gente rindo da minha cara por aí em razão disso, mas eu nem ligo, ó, visto que tenho uns vinte e oito ensaios pra escrever, umas trezentas (mil) páginas pra estudar e, ao mesmo tempo, meu trabalho (chato) se multiplica mais do que os tais pães e peixes. Resumindo, estou muito atarefada e não me sobra tempo pra preocupação com a falta de noçón alheia.


Sim, esta é outra das razões pelas quais não consegui postar nada essa semana. Tanto pedi e chorei que minhas aulas voltaram depois de quase 80 dias de férias forçadas. Lembrando, é claro, que ainda estou no primeiro semestre - o segundo só começa dia 8 de setembro. Sim, minha gente, a USP é uma maravilha tecnológica tão fabulosa que não só descobriu, mas comprovou cientificamente uma maneira de fazer com que um semestre dure mais do que seis meses. De modo que estou de volta aos ensaios, e academic presentations, e produção acadêmica no meu inglês que eu achava que era bom mas, estou descobrindo, é macarrônico "a nível de" curso superior. O que torna meu italiano uma piada, meu latim pior ainda e meu russo... ai, gente, eu não falo russo. Meu russo serve puramente pra entreter as pessoas em festas. Acho que vou montar uma barraquinha na feirinha do Masp e oferecer aos passantes tatuagens de henna em russo, porque é só pra isso que ele serve mesmo. Ou então "escrevo seu nome em russo num grão de arroz". Que tal?


Não bastasse tudo isso, somado à minha já conhecida (e medonha) falta de organização, tive que parar uns minutos pra pensar numas coisas que andei fazendo, e sobre as quais achei que nunca mais ia ter que refletir. Talvez seja exagero meu, mas essas ações dizem muito sobre a minha pessoa (é incrível como aquilo que a gente acha que é exclusivamente sobre os outros acaba se tornando um espelho pra gente mesmo), e fiquei tentando encaixar esses dizeres nos lugares onde eles cabem. Neste processo, gastei um tempinho, mas pelo menos exercitei os músculos da face fazendo inúmeras caras de cu (sem acento) ao longo da semana.


E não, eu não daria mais detalhes nem que estivesse com vontade. Seria extenso até para uma prolixa assumida como eu; seria antiético, imaturo, bobo. Seria muita coisa, really. Assim, se eu tivesse que fazer um post sobre a semana que passou, eu o faria todo em forma de palavras-chave. E não, eu não gosto dessas tags. Talvez vocês tenham notado que não as uso. Tenho preguiça. E acho que ninguém vai vir procurar nada aqui através de tag. Fora que eu sou ruim em dividir coisas e não sei criar tópicos, o que faria com que houvesse vários itens praticamente inúteis e não rolasse uma divisão igualitária: os assuntos "livros" e "bebedeira" compreenderiam inúmeros posts; o assunto "love" ficaria completamente vazio e o assunto "trabalho" conteria palavrões demais. Mas esta última semana, eu "taguearia" mais ou menos assim...:


cara-de-ué; dúvida; aniversário; comida; Outback (merece uma tag só pta ele, tá?); engraçado; pai; mãe; choro; vela; madrasta; sobrinho; second-life-para-crianças-que-medo; dor-de-barriga; frio-na-barriga; Drummond; russo; eu-quero-que-a-soviética-maldita-volte-pro-gulag-de-onde-ela-saiu; Sibéria; e-mail; gmail; gtalk; msn; blogspot-doesn’t-work; livros; bebedeira; mais-livros; mais-bebedeira; ex-n; outro ex-n; outro ex-n ainda (é, eu sou bem do tipinho que fica amiga de ex); conselho; vovó; titia; torta-de-palmito; geléia-de-maracujá; spinning; sms; celular; processos; mais-processos; inúmeros-processos; preguiça; sono; dúvida; dinheiro ("falta de" seria mais adequado); cozinha; audiência; advochatos; fonética; fonologia; presentation; lembrança; ressaca-moral; full-disclosure; volta-dos-que-não-foram; aguenta-essa-menina-agora-que-ela-passou-no-MP; telefone; grampeador; frio; muito-frio; virando-picolé; rolling-the-dice; chefe-chata-quebrando-a-cara; cara-de-cuíca; cachorros; Charlotte; Billie; Violeta; Amélia; bebê; bolo-de-cenoura; choque; rollerblades; saudade; madrinha-de-casamento-em-novembro; madrinha-de-outro-casamento-em-novembro; vestido-de-madrinha; profumo-di-donna; a-streetcar-named-desire; Tennessee-Williams; Nuió; San-Francisco; férias; férias-chegando; despertador; banho-quente; agora-é-tarde; go-for-it.