29/11/07

L'abat-jour

Já havia um homem ali. No elevador, quando puxei a porta pela maçaneta e entrei. Levava nas mãos um objeto deveras curioso, que em dias mais felizes deveria ter sido uma cúpula de abat-jour de cetim amarelo-ouro, enfeitado com fitas e frufrus (isso existe?) exatamente da mesma cor.


Provavelmente chegou, de certa feita, a compor a decoração da casa dalguma jovem senhora, talvez solteira e certamente excêntrica. Sob a luz pálida por ele abrigada deveriam descansar bibelôs de biscuit: um anjogabriel, um gato siamês, uma bailarina russa. Sobre a mesmíssima mesinha de canto, um telefone, daqueles negros e pesados, em cujos discadores criancinhas desavisadas costumavam prender os finos dedos. Através dele, a jovem senhora discutia com as comadres o capítulo-de-ontem da novela, trocava com outras senhoras receita de pudim de yorkshire por mil maneiras de tirar manchas, chamava um taxi para ir ao cinema em dia de domingo.


Pois bem; trocou-se o telefone por um modelo sem-fio que permitia à senhora, ja um tanto mais velha e mais curvada, seguir as receitas da comadre em tempo real, em pé defronte ao balcão da cozinha, a mexer farinha-ovo-leite-açúcar com aquela das mãos enrugadas que nao segurava o aparelho; ainda, a senhora adquirira um carro popular ano 2005 em 36 suaves e identicas prestações, o qual estacionava confortavelmente em vaga demarcada dentro de um grande shopping center, toda vez em que sentia vontade de cinema, teatro, roupa nova ou bigue-maque; seus nove sobrinhos-netos (pois que nunca se casou nem teve filhos) jamais prenderam os dedinhos no discador maligno pois que o mesmo ja sequer existia mas, por outro lado, em suas brincadeiras impúberes quebraram a perna da bailarina russa, o rabo do gato siamês e a auréola do anjogabriel, fazendo com que este perdesse sua aura de criaturinha etérea.


Um dos sobrinhos-netos era justamente o homem do elevador, ele mesmo já adulto, trazendo nas mãos a cúpula do abajur outrora amarelo-ouro, hoje cor de mostarda tal qual sua camisa feia; fora buscar o objeto no apartamento da tia-avó, agora fechado, sabendo que sua esposa Maria do Carmo sempre tivera afeição especial por aquelas fitas e frufrus (isso existe?) de tecido brilhante, desejando guardar a peça como reliquia de família.


A tia? Foi morar em Águas de Lindóia: dizem que em tal paragem o liquido insipido, inodoro e incolor advindo do lencol freático é excelente para tratar o reumatismo.


(publicado atendendo a pedido)

2 comentários:

Ariett disse...

O pedido não foi meu, mas quem pediu merece meus agradecimentos. ;)

Virgínia disse...

Palmas. Adorei.