... e era o cheiro de leite (e mel, claro) no cabelo dela, aquele cabelo castanho fino e sem-graça, que emaranhava ao menor sopro de brisa, brisa castanha fina e sem-graça soprante na distante Barra Funda No Man's Land, onde venta frio quando é frio e o sol castiga quando é calor e é nublado quando é noite e assustador quando é dia; e eram as bolhas nos pés, seis ou sete ao todo, esses pés castigados por sapatos pretos de verniz novos, bandeides escorregando pelos calcanhares; mas ela ia assim mesmo, comprar iogurte e guaraná (quero esfregar sal nos meus lábios right now), eram nove ou dez horas do dia, não se sabe ao certo, no princípio do horário de verão os relógios ficam deveras idiossincráticos, não é verdade?; algo berrava pelos fones de ouvido afora e pelo ouvido martelo-bigorna-estribo-e-outros-pormenores adentro, provavelmente The Beatles, ou quem sabe The Stones, The Vines, The Yeah-Yeah-Yeahs; e ela pensa que sabe cuidar de si mas todos os transeuntes vislumbram a grande verdade, ela não trata sequer das próprias bolhas, furando um microfuro com o alfinete e pressionando delicadamente para que a água vaze, lavando, limpando, desinfetando, lambendo; inflamadas, ardem as bolhas, ardem os olhos de sono, arrepiam-se a pele e os pêlos, arde o cérebro quando ela não entende; ela, pois, pensa; pensa que seria melhor desligar, não pensar, switch off, onde fica o interruptor mesmo?; ri sozinha, lubrifica os olhos, caramba, é uma kombi verde em rua de paralelepípedo, largando as partes e peças pelo caminho, queimando óleo e vazando lágrimas, o riso é a buzina da alma; avalanche de travesseiros, presentes implícitos e explícitos; ela crê, ela duvida, ela tira-teima, tira a prova, tira sarro, tira-o-corpo-fora, tira de letra; a dormência de um coração ausente incomoda muito mais do que a ardência de sete bolhas inflamadas nos calcanhares, façamos então o teste da inflamação, da dormência, da insolência, da excrescência; lembremos Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas não só porque isso aqui é um parágrafo gigantesco e enfadonho, mas eis que a todos nós nos falta membros essenciais e sensibilidade para ver as vontades alheias, perdidos que estamos em minutos cheio de ocaso ou (por que não?!) em ocasos cheios de minuto; oh, quem dera ter o talento necesário para escrever toda essa bobarréia em versos decassílabos, de modo que me chamariam poeta (poetisa?) e daí então eu poderia bancar a vaca blasé e fingir que de tudo sei quando, em verdade, vejo-me sem entender porra nenhuma de qualquer coisa; vai ver o homem é mesmo o lobo do homem, os esquimós distinguem sei lá quantas tonalidades de branco, you make me feel so young (as spring has sprung) e me vê um misto quente, uma bomba de chocolate e uma coca zero fazfavor.
15/10/07
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6 comentários:
Embora me sinta tentado a dizer "nem precisa pensar", eu sei que você precisa; excelente post, e é desse jeito mesmo que vamos correndo em ruas com paralelepípedos emborrachados debaixo de chuva - beijão!
Texto iincrível. É notável seu progresso literário (sentimental?). E o mais bonito: você tem seu estilo, sua alma.
beijos!
Joojoo poetisa a vida. Adoro!
É. Você sabe escrever.
Menina, que inspiração!
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